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O meu primeiro experimento científico

Para fazer ciência, ao contrário do que muitos pensam, não é necessário ser maluco ou ter o cabelo bagunçado. É necessário muito esforço e ética, principalmente quando um ser vivo é utilizado em prol da ciência. Na minha iniciação científica, eu trabalhei com ratos Wistar, aqueles ratos branquinhos, porém, um ponto a ser esclarecido é o uso de ratos em experimentos. Por que utilizar ratos em pesquisa se visam melhorar a saúde humana? De uma forma superficial do ponto de vista biológico, a fisiologia (funcionamento do organismo) do rato é, em muitos pontos, similar a dos humanos. Mas os animais não devem ser utilizados em experimentos sem fundamento científico, então, não basta ter uma ideia e verificar empiricamente no animal os resultados desta ideia. Há algum tempo, graças aos órgãos de proteção dos animais e a legislação, o uso dos animais em experimentos só é justificado por estudos que visam beneficiar a saúde humana e também de outros animais. Para analisar se o uso de animais em um estudo é viável ou não existem os comitês de ética em pesquisa. O comitê de ética em pesquisa analisa os aspectos bioéticos, desde o manejo até o sacrifício do animal, e a importância social do estudo e, a partir disso, emitem um parecer aprovando ou reprovando o uso do animal em uma pesquisa. Só se deve iniciar um estudo utilizando animais com a aprovação do comitê de ética. Foi o que eu e meu grupo de pesquisa na iniciação científica fizemos. Após a leitura de vários artigos científicos e livros, escrevemos um projeto de pesquisa, sendo este enviado ao comitê de ética, e após a autorização do comitê, iniciamos o estudo. Nosso estudo teve como objetivo analisar os efeitos da suplementação de um composto no organismo, este composto é denominado L-arginina. A L-arginina é um aminoácido (um componente das proteínas) que desempenha diversas funções importantes no organismo, sendo o seu papel mais conhecido a dilatação dos vasos sanguíneos (vasodilatação). Este fenômeno é influenciado pela L-arginina devido a esta molécula ser precursora de um gás, o óxido nítrico (NO), e este é o que verdadeiramente atua vasodilatação. Aliás, baseado nisso, a suplementação com L-arginina começou a se difundir nas academias e no meio esportivo com a argumentação de que a vasodilatação promovida pelo NO ocasionava a chegada de mais nutrientes aos músculos através do sangue. Porém, não se tinha evidências científicas de que isso, de fato, ocorria. Por outro lado, *quais seriam os efeitos da suplementação deste composto na estrutura microscópica do músculo e de outros órgãos? Foi isso o que nosso grupo de pesquisa tentou responder cientificamente. Então, utilizamos ratos alocados em dois grupos para o estudo, de modo que um grupo não recebeu o composto (grupo controle) e o outro grupo foi suplementado com L-arginina por quatro semanas. Após esse período, os animais foram sacrificados e o músculo da panturrilha (gastrocnêmio) e outros órgãos foram retirados, tais como fígado, pulmões, coração, rins, etc. Como iríamos estudar esses órgãos por microscopia óptica e, para isso, os órgãos precisariam ser submetidos a um processo de preparo histológico. Então, os órgãos passaram por algumas substâncias até serem emblocados, separadamente, em parafina. O bloco de parafina contendo um órgão vai para um equipamento chamado micrótomo (micro = pequeno; tomia = corte), onde são realizados cortes de 4 micrômetros de espessura, ou seja, cortes finíssimos. O intuito desses cortes finos é que a luz passe pelo órgão, para que este seja analisado no microscópio. Os cortes são colocados em uma lâmina e, posteriormente, são corados para finalmente serem analisados por microscopia. Para o estudo do músculo do rato suplementado, foi utilizado um microscópio com câmera acoplado a um microcomputador. Foram tiradas fotos da lâmina do músculo e, em um programa do computador acoplado ao microscópio, foi medida a circunferência das células musculares, para tentar justificar se realmente a suplementação com L-arginina promovia o aumento da massa muscular. Como resultado, foi observado que houve aumento da circunferência das células musculares dos ratos, como também foi demonstrado em outros trabalhos (de modos inapropriados). Assim como se deve fazer com todo trabalho científico, publicamos a nossa pesquisa em um periódico nacional (Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício), para que outras pessoas possam usufruir do conhecimento gerado. Com dados ainda não publicados, notou-se um efeito, talvez, maléfico nos pulmões. Alguns órgãos ainda estão em estudo por membros do grupo. Enfim, respondemos parte de nossa pergunta (*), mas esta parte que respondemos serve como embasamento para estudos mais aprofundados no tema.

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