Esta entidade flagrada acima é um componente essencial para o funcionamento do sistema nervoso, trata-se de um neurônio (ou célula nervosa). Esta célula é especializada em conduzir impulsos elétricos (ou nervosos) a "longas" distâncias com o intuito de estabelecer comunicações dentro do nosso organismo. Os neurônios estabelecem inúmeras conexões entre si (sinapses), e também interagem com outros tipos de células para compor um tecido, formando assim o tecido nervoso. Em biologia, um tecido é uma matéria composta por células e substâncias (matriz extracelular) produzidas por estas células. As células quais os neurônios interagem, o oferecem suporte fisiológico, sendo estas conhecidas como células da glia. O termo "glia" vem do grego e significa cola (que provavelmente deu origem a palavra inglesa glue = cola). As células da glia (ou neuróglia) existem na proporção de 10:1 neurônio e possuem diversas funções fisiológicas no tecido nervoso. Existem cinco tipos de células da glia, são eles: astrócitos, microgliócitos (micróglia), células ependimárias, oligodendrócitos e células de Schwann. Os primeiros quatro tipos celulares são encontrados apenas ao redor de neurônios do sistema nervoso central (SNC), que é composto pelo cérebro, tronco encefálico e medula espinal. As células de Schwann são encontradas apenas no sistema nervoso periférico (SNP), que é constituído por nervos e gânglios. A figura abaixo discrimina o SNC (Central Nervous System) e o SNP (Peripheral Nervous System).
Começaremos a falar sobre os astrócitos. Estas células possuem forma estrelada (astro = estrela) e são essenciais para manter os neurônios em estado saudável, pois os astrócitos formam uma barreira entre o conteúdo do sangue e o tecido nervoso, evitando que algumas impurezas sanguíneas afetem os neurônios. Esta barreira, chamada barreira hematoencefálica, é formada pelo isolamento da parede externa dos vasos sanguíneos por prolongamentos dos astrócitos denominados como pés vasculares (ver figura abaixo).
Além disso, os astrócitos estão envolvidos na regulação do fluxo sanguíneo para áreas cerebrais em maior atividade (fenômeno conhecido como "hiperemia funcional") e no isolamento das sinapses (a figura abaixo demonstra o isolamento de uma sinapse).
A micróglia é um tipo de célula de defesa que está localizado no tecido nervoso. Esta célula tem origem na medula óssea e, no período intrauterino, a mesma migra para o tecido nervoso, por onde se aloca para a vida inteira. Sua função principal é englobar (fagocitar) corpos estranhos e restos de células mortas no tecido nervoso. O video abaixo mostra uma cultura de células microgliais (modo artificial de manutenção da vida de células).
As células ependimárias são células de revestimento e estão presentes nas regiões de ventrículos cerebrais e canal central da medula espinal. Estas células representam uma área intermediária entre o restante do tecido nervoso e o líquor (líquido cefalorraquidiano - LCR). A superfície destas células apresentam cílios (ver figura abaixo), sendo que estas estruturas possuem capacidade de movimentação e, devido a isso, são responsáveis pelo fluxo do líquor no SNC. Além disso, algumas células ependimárias se modificam com intuito de formarem uma estrutura chamada de plexo corióide, de modo que o plexo corióide é a estrutura responsável pela produção de líquor, ou seja, as células ependimárias além de transportar o LCR, também o produz.
Os oligodendrócitos compõem a tão famosa bainha de mielina, que aumenta a velocidade de condução dos impulsos nervosos. A agressão a esta estrutura é ocasionada pelas doenças desmielinizantes do SNC, tais como a esclerose múltipla. Quando a bainha de mielina é destruída, o neurônio que era mielinizado acaba morrendo. As células de Schwann são as únicas células da glia que estão fora do SNC, de modo que sua função é de também formar a bainha de mielina, só que em neurônios do SNP. Doenças desmielinizantes também acometem o SNP, alguns exemplos destas doenças são: síndrome de Guillain-Barrè e doença de Charcot-Marie-Tooth.
Existe uma classificação de neurônios de acordo com a organização da bainha de mielina, sendo então classificados como amielínicos ou mielínicos. Os neurônios amielínicos não possuem axônios totalmente envoltos por bainha de mielina, boa parte destes axônios ficam sem os prolongamentos das células de Schwann. Já os axônios de neurônios mielínicos possuem um revestimento específico, onde a bainha de mielina se espirala em torno do axônio, deixando apenas pequenas áreas expostas, sendo estas conhecidas como nodos de Ranvier. Funcionalmente, estes neurônios se diferenciam pela velocidade de propagação dos impulsos nervosos, de forma que os neurônios mielínicos propagam estes impulsos com maior velocidade. As figuras abaixo demonstram como as células de Schwann se organizam para tornar uma fibra (ou axônio) amielínico ou mielínico.
Sugestão de leitura para conhecimento mais aprofundado sobre o tema:
- Junqueira LCU & Carneiro J. Histologia Básica. 11ª ed. Guanabara Koogan, 2008
- Gartner LP & Hiatt JL. Tratado de Histologia em cores. 2ª ed. Guanabara Koogan, 2003
- Attwell D et al. Glial and neuronal control of brain blood flow. Nature. Vol 468, 2010
- Eroglu C & Barres BA. Regulation of synaptic connectivity by glia. Nature. Vol 468, 2010
- Emery B. Regulation of Oligodendrocyte Differenciation and Myelinization. Science. Vol 330, 2010




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